Reportagem: Marcela Chiarelo, Marcos Gonçalves e Pedro Garcia

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Arquivo pessoal

Em algum momento já se perguntou o que é nascer mulher e preta no Brasil? Um país com concepções e comportamentos excludentes, agressivos e perversos diante dos pretos, mulheres, deficientes físicos e intelectuais e LGBTQ+.
Infelizmente, o Brasil carrega uma herança cultural cruel e sem lógica construtiva. Ser preto no Brasil não é tarefa simples. Segundo o IBGE, embora metade da população se declare preta, ainda há descriminação e racismo.
Até quando?
É preciso gritar, dar voz. O silêncio se torna um faz de conta de normalidade e aceitação. Não basta não ser racista, é preciso combater.
Isabela Rosa Azarias, 19 anos. Inteligente, dedicada, linda, militante e desempregada. Uma jovem esperançosa de que a sociedade se torne um local mais justo e menos intolerante com as diferenças. Ninguém é igual a ninguém.
Marcela Chiarelo (Repórter): Você sofreu ou sofre algum tipo de preconceito ou discriminação?
Isabela Azarias: Quando eu era criança, quando eu tinha aproximadamente 12 anos, fui com uma colega na casa de uma senhora. Ao chegar lá, a senhora pediu que eu esperasse do lado de fora porque, segundo ela, o cachorro não gostava de “gente de cor”. Na época, não entendi o que havia acontecido. Hoje, tendo mais conhecimento, me sinto desconfortável com essa lembrança. É um baque para quem sofre.
R: Você chegou a sofrer bullying, teve apelidos?
Isabela: Já ouvi piadas sobre meu cabelo, principalmente na escola. Acho que isso por um tempo me deixou muito confusa, insegura. Tanto que até meus 16 anos alisava meu cabelo e o prendia, por sentir vergonha.
R: Houve em algum momento orientação ou apoio familiar? Como isso foi?
Isabela: Minha mãe conta que eu falava que eu queria ser branca, e ela me ensinou que eu deveria me amar e me aceitar do jeito que sou. Pelo fato de eu ter pai branco e mãe negra, eu me comparava com a cor da minha família paterna. Sempre tive apoio familiar através de conversas e exemplos. Devo muito da minha auto-estima de hoje aos meus pais.
R: Você se sentiu excluída em algum momento da vida ou se excluiu por conta da sua cor?
Isabela: Me excluir não, mas na época da escola fundamental eu pensava, por que eu não sou igual aos outros? Lembro das festas juninas, a noiva era sempre a menina branca de cabelo liso, não me sentia suficiente para ser escolhida, geralmente na minha sala havia eu e mais dois ou três colegas negros.
R: O que mudou desde a sua infância?
Isabela: Hoje me sinto bem do jeito que sou. Amo minha cor e meu cabelo, mas já percebi olhares, cochichos e gente escondendo bolsas e celulares.
R: Você se sente representada pela mídia?
Isabela: Atualmente sim, mas creio que há um bom caminho a ser percorrido ainda. Se você for pensar, há dez anos, a gente nõ via representatividade na mídia, seja em comerciais publicitários ou papéis principais em novelas e filmes. Hoje, vendo uma mulher negra interpretar uma médica, eu me sinto representada. Isso é muito importante porque fomos apagados, subjulgados e ridicularizados por muito tempo.
R: O que você acha das cotas raciais?
Isabela: Cotas são essenciais para se ter uma sociedade mais justa. É uma reparação histórica que só veio a acontecer há dez anos, para tentar pagar os trezentos anos que os nossos antepassados foram escravizados, mas ainda assim somos minoria nas universidades.
R: Você acredita que existe preconceito no mercado de trabalho?
Isabela: Eu sinto que sim. Estou procurando emprego desde 2018, e nunca recebi nenhuma ligação ou convite para entrevista. Mulheres negras são as que são menos contratadas, se formos observar, a discrepância é grande no mercado de trabalho.

Você ri da minha roupa, você ri do meu cabelo, você ri da minha pele, você ri do meu sorriso. Sandra de Sá

Já dizia Toni Tornado “O meu caráter não está na minha cor”.