Por: Guilherme Araújo

Foto: Revista do Amanhã

Dentre as várias possibilidades e motivos para se estudar História, podemos citar dois: Devemos conhecer os erros dos nossos antepassados a fim de evita-los – afinal, como já foi sabiamente foi dito pelo filósofo alemão Karl Marx “a história se repete, a primeira vez como tragédia, e a segunda como farsa” – além disso, o estudo do passado também se faz necessário para a compreensão dos acontecimentos do presente.

Por sua vez, o acontecimento do presente que chama atenção de todos é a pandemia do Covid-19. Então cabe a seguinte indagação: o que o passado tem a nos ensinar a respeito de pandemias?

Certamente os vírus e as doenças são os maiores inimigos da humanidade desde tempos longínquos. Tomemos como exemplo os surtos de varíola na Roma antiga, ou ainda a epidemia de Gripe Espanhola, que sozinha vitimou mais pessoas do que todas as batalhas da Primeira Guerra Mundial! (incluindo o Presidente do Brasil, Rodrigues Alves). Também são muito conhecidos a “Peste Negra”, durante a Idade Média, e o caso do genocídio indígena logo após o contágio devido a chegada dos europeus à América.

Durante a Idade Média, período que compreende 1.000 anos da nossa História, houve vários surtos da chamada Peste Negra. A palavra “peste” em latim, significa “a doença”, enquanto o “negra” faz referência à gangrena dos tecidos, que ficavam escuros. A doença também é conhecida como “Peste Bubônica”, devido aos inchaços (chamados de bubões) nas glândulas linfáticas.

A peste era transmitida através da pulga dos ratos, cerca de 60% dos infectados morriam após 7 dias do início dos sintomas. No total, cerca de 1/3 da população da Europa foi vítima dessa doença. Na época, devido ao pouco avanço da medicina, se atribuía a origem da peste a vontade divina. A morte e sofrimento de milhões de pessoas era uma mensagem enviada diretamente por Deus para que abandonássemos os pecados e vivêssemos uma vida de penitência e arrependimento. Grupos específicos (principalmente judeus e ciganos) também costumavam ser culpados pela peste e eram violentamente perseguidos e reprimidos.

Vale lembrar que o ambiente pouco higiênico e as rotas comerciais entre ocidente e oriente que passavam por diversas cidades europeias e asiáticas contribuíram para o alastramento da peste. Aliás, a “quarentena” foi criada nessa época como uma medida de segurança que deveria ser rigorosamente cumprida pelos navios mercantis antes de atracar nos portos da cidade italiana de Veneza e Gênova.

Também é válido relembrar que no dia 12 de outubro de 1492, juntamente com a frota de Cristóvão Colombo, chegava às Américas um exército microscópico capaz de se multiplicar em progressão geométrica e que causaria muito mais dor e sofrimento do que lâminas afiadas e os crucifixos cristãos.  Esse exército era composto por diversas patologias até então inexistentes no novo mundo. Podemos citar como exemplo o vírus da gripe, a famigerada varíola, sarampo e disenterias.

Os anticorpos – as linhas de defesa necessária para conter os avanços do inimigo – eram inexistentes nos indígenas, que flertavaram com a extinção.

Apesar da impossibilidade de organizar a defesa, os povos nativos tinham suas próprias armas de ataque, e infectaram os europeus com vírus made in América, como por exemplo a sífilis, malária e a doença de chagas.

A diminuição das distâncias ocasionadas pelo processo de globalização, juntamente com os avanços nos meios de transporte e estreitamento das relações comerciais foi o cavalo de Tróia que possibilitou aos vírus chegar a lugares antes considerados isolados.

Hoje vivemos no limiar de uma nova pandemia que teve origem em um mercado de pescados chinês e que se alastra a uma velocidade vertiginosa.

O primeiro ponto a se considerar a respeito desse novo tipo coronavírus é a sua taxa de letalidade, que no geral é inferior a outras doenças que já enfrentamos e vencemos. Contudo, é necessário tomar as devidas prevenções para com as pessoas que pertencem ao chamado grupo de risco, visto que nesses casos específicos a contaminação pode ter consequências muito mais graves e até levar a morte.

O segundo ponto é referente a maneira como lidamos com isso, já que o nosso comportamento diante do problema é decisivo diante a proliferação do vírus.

A quarentena para os que estão com suspeita, bem como o isolamento social para evitar ser contaminado são medidas relevantes e que devem ser levadas a sério. Além de representar um grande risco a vida das pessoas, uma pandemia também causa uma série de danos sociais e econômicos.

Seguir as indicações de isolamento e quarentena não é tão ruim assim. Quando a Universidade de Cambridge fechou as portas no ano de 1666 devido a um surto da Peste, um jovem matemático chamado Isaac Newton se refugiou no interior do país e aproveitou seu tempo livre para desenvolver sua teoria da lei de gravitação universal logo após ver uma maçã caindo. Enquanto isso, o jovem escritor italiano Giovanni Boccaccio criou a obra prima “Decameron”, que narra a história de 10 jovens que estão viajando para se refugiar da praga que assola Florença (aliás, essa seria uma leitura muito oportuna no momento). Com muito mais modéstia, nós também podemos aproveitar o tempo livre para produzir coisas boas em meio esse caos, como por exemplo escrever um texto para o site de um amigo, ou ainda militar contar contra o Bolsonaro nas redes sociais.

Longe de apontar culpados, é necessário identificar o problema para trata-lo. Não se trata de atribuir a culpa aos chineses por terem criado uma arma biológica a fim de desvalorizar as bolsas de mercado do ocidente para depois compara-las a preço de banana (como se a própria economia chinesa não houvesse sofrido perdas bilionárias), tão pouco se trata de relacionar o surto do Covid-19 com passagens bíblicas do apocalipse ou com profecias de Nostradamus que preveem o fim do mundo (Senhor Jesus Cristo, estou ansioso para ser arrebatado em meio ao caos).

Para muito além dessas questões, a História nos mostra que essa é apenas mais uma batalha de uma grande guerra que vem sendo travada desde o início da evolução das espécies. A nós, seres providos de racionalidade, se faz necessário muita sensatez, sobriedade e seriedade no enfrentamento dessa questão. Afinal de contas, um bom soldado não é o que se expõe desnecessariamente em batalha, e sim aquele que busca conhecer o inimigo e preparar-se para a contenda.