Por Marcela Chiarelo

 

Entrevistado: Nelson Agostinho de Souza Filho

Data nascimento: 01/02/1970 – 49 anos

Filho de Nelson Agostinho de Souza e de Maria Aparecida de Souza, o rifainense Nelson Agostinho de Souza Filho, popularmente conhecido como Nelson Zip Zap, vem fazendo história na cidade de Pedregulho.

Nascido no balneário de  Rifaina, no dia 01 de fevereiro de 1970, Nelson Zip Zap ainda criança demonstrava seu potencial autodidata para comunicação. Cresceu interpretando locuções, admirando os programas da extinta rádio Sociedade FM de Uberaba, atualmente rádio Zebu FM. Fundou em 1994 a única rádio ainda existente na cidade de Pedregulho. A partir de agora teremos o prazer de saber um pouco mais sobre o ilustre Nelson, que, está à frente da rádio há 25 anos.

 

MC: Como surgiu o interesse de criar uma rádio?

Nelson: No início da década de 90 estive em São Paulo, estava começando os movimentos das rádios comunitárias, havia um fórum da democracia da comunicação que era redigido pelo professor Fausto. Lembro que havia uma manifestação no Viaduto Maria Paula e eu lá de curioso peguei os folders, lá explicava como se montava uma rádio comunitária, qual era a luta. Em 1994 junto Antônio Milin David, houve a oportunidade de implantar na cidade de Pedregulho. Naquela época já acreditava que o povo tinha que ter voz, o povo tinha que fazer suas reclamações contra o sistema. Aqui é uma cidade pequena, uma cidade politiqueira. Ficamos na pirataria por 4 (quatro) anos. No ano de 1998, no governo do FHC essa se tornou realidade, iniciaram as concessões. A partir daí, lutamos por 10 (dez) anos para obter a concessão.

MC: Quais foram as dificuldades nesse período?

Nelson: A dificuldade maior era que tínhamos um problema com a DENTEL ( DEPARTAMENTO NACIONAL DE TELECOMUNICAÇÕES), hoje se transformou na ANATEL. Era muito fiscalizado, muitos companheiros de luta pela democracia da comunicação foram presos por mão ter a liberação órgão competente.

 

MC: Quais as contribuições da ANATEL atualmente para emissoras de rádio?

Nelson: A ANATEL é um órgão muito rigoroso, a rádio comunitária tem muitas regras, você fica limitado, é impedido de propagandas comerciais. Temos um computador que é para uso da ANATEL, se tem denuncia eles veem e pedem exatamente a data o horário e temos que realizar a busca no sistema. Uma rádio comunitária mal se sustenta, vivemos pelo apoio cultural.

 

MC: Há politicas federais de apoio as rádios comunitárias:: De que modo?

Nelson: Muitas conquistas já foram efetuadas, o maior defensor das rádios comunitárias é a Associação Brasileira de Rádio Comunitária, o que vejo é o império da informação que dificulta a inserção da rádio comunitária. Pois, o que mais atrapalha é o lado financeiro, dependemos de doações.  Se você vai disputar com uma rádio comercial não se tem espaço. A rádio funciona com 4 locutores voluntários, apenas 1 tem salário.

 

MC: Como a rádio está se adaptando as novas tecnologias da internet?

Nelson:  O rádio ele será sempre ouvido, por mais que a tecnologias são avanças tem pessoas que não se adequam,  há pessoas que tem  um carinho especial pelo rádio. O facebook é uma ferramenta, falando do meu programa que é jornalístico tem muito pedregulhenses fora do município que assistem as lives para estarem por dentro do que ocorre na cidade. Temos uma boa aceitação. Por exemplo, tenho ouvintes de Catalão, do Ceára, conseguimos criar vínculos. Na Praia Grande temos a dona Iraci Rodrigues, uma ouvinte que além de participar e nos ouvir ela interage com quarteirão todo dela, lá diversas pessoas passaram a nos conhecer e participar por conta dela.

 

MC: Baseado no tempo do programa no ar, como você analisa o alcance das informações de interesse público à população ?

Nelson: O programa está no AR há 10 anos, no início foi difícil porque você tem aqueles que te adoram e os que te odeiam, as vezes um comentário ou palavra errada que se emprega ele te abala, o melhor jeito é persistir ai começamos a cativar. Então você passa a ter aquele diferencial, eu acredito muito que a população bem informada ela passa a questionar mais, vejo que muito não tem coragem de usar o microfone porque o filho trabalha no local tal e tem medo de prejudica-lo, mas eles usam da nossa fala para poder fazer a reivindicação. Pedregulho mudou muito a partir do momento que o programa entrou no AR, porque muitas coisas que a população não tinha conhecimento de como funcionava passou a ter através do programa.

 

MC: É sabido que a fiscalização do poder publico é crucial. De que modo seu programa exerce essa fiscalização ?

Nelson: Vou usar uma linguagem popular “você pisa em ovos”, temos ouvintes da escala da elite, tenho um prazer e satisfação enorme em saber que às vezes o Juiz da comarca, Promotor e o delegado ouve o programa, por sermos exclusividade no município. Principalmente quando se trata de saúde, é algo impressionante o quanto a nossa população sofre. São pequenos problemas que trazem os problemas maiores. Então quando o poder público esquece de dar atenção, nós cobramos aquela atenção, se a resposta for de imediato, consegue se resolver, mas se o poder público deixa passar, ai, as redes social tomam conta, aí é perigo para o administrador público, a vereança, o prefeito, secretariado. É preciso estar antenado para uma resposta rápida, se eles ficam inerte a população passa criar problema maiores, porque não tiveram respostas, nesse momento nós entramos como voz da população. Outro lado interessante é quando o ouvinte vem ao AR. Se tratando de rádio comunitária, em uma cidade pequena igual Pedregulho, aonde o poder político é muito forte, aliado com dois partidos, porque temos aqui uma cidade dividida, de, quem está no poder e quem está fora, as vezes confunde sobre a reclamação e se leva para lado pessoal. O objetivo da emissora nunca foi colocar uns contra os outros. Nosso papel é simplesmente cobrar uma ação mais efetiva do poder público para que o caso em questão não se repita.

 

MC: Quais são os desafios de ter um veiculo local, sabendo que o horário que o programa vai ao AR é o mesmo horário dos jornais regionais da EPTV e RECORD?

Nelson: Olha, é uma disputa gostosa! Porque quem é residente do município quer focar no que acontece no município. Tivemos várias transformações no programa no decorrer de sua existência, eu abordava temas que hoje foi percebendo que não havia adesão. Aprendi que o melhor foco é no município de Pedregulho. Claro, tem notícias de grande proporção do país que em certos momentos se faz necessário o espaço.

 

MC: A quanto tempo você está à frente do Programa Sociedade Notícias, e, qual a utilidade pública do programa?

Nelson: Estou à frente do programa desde início, em maio de 2020 comemoraremos 10 anos do programa no AR. O Estatuto das Rádios Comunitárias, exige que destine-se uma parte da programação para o jornalismo informativo do município.  Não tenho faculdade de jornalismo ou radicalismo isso é paixão de criança que fui me aprimorando. Tenho uma história interessante, em 2012 apareceu aqui uma família com 3 crianças com destino o estado da Bahia, sem almoço, roupas, sem nada, pediram ajuda para o programa. A partir daí criamos a legião dos Anjos do Bem, hoje temos cerca de 150 pessoas que caminham conosco. Infelizmente  em alguns momentos de tragédia, quando ouve a tragédia em Teresópolis- RJ

e Rio Grande do Sul por conta do excesso de chuva, enviamos doações, há dois anos em Matutina houve um temporal, muitas pessoas ficaram desabrigadas, através dos Anjos do Bem, conseguimos arrecadar um caminhão de doações com mantimentos.  Também conseguimos construir uma casa popular de 60m² favorável a uma cidadã da cidade. O lado social é muito importante, o último estágio da pessoa acaba sendo a emissora, quando o poder público não atinge o que a pessoa precisa eles veem até a rádio. Sofremos muitas ameaças.

 

MC: Para você quais são os maiores desafios de uma gestão pública?

Nelson: Há nove anos acompanhando, vejo que se troca de prefeito, os erros são praticamente os mesmos. A área mais deficitária é a área da saúde, infelizmente ela te traz muita dor de cabeça, falta às vezes o diálogo.

 

MC: Porque o nome do programa SOCIEDADE NOTÍCIAS?

Nelson: O nome advém por conta da rádio Sociedade FM, poderia ter colocado Programa do Nelson, mas somos uma sociedade constituída, aproveitei o gancho e coloquei o nome Sociedade Notícias, porque assim todo mundo pode participar da grade.

 

MC: Qual sua visão sobre a ética do plantão polícia. Quadro esse de grande audiência no programa?

Nelson: O Plantão Policial para mim é extremamente perigoso, veja bem, o quadro é feito pelo Tenente Ailton, então, toda responsabilidade é dele. Boa parte da população gosta de fazer os problemas acontecerem, mas não gosta de ter o caso divulgado. Temos o cuidado de preservar o nome, mas quando divulga o fato todo mundo acaba sabendo quem o fez, por ser uma cidade pequena. Sofremos ameaças. É ético porque damos créditos as policias envolvidas e a população acaba tendo conhecimento do que está acontecendo.

Foto: Nelson Zip Zap. (Marcela Chiarelo)

MC: Quais os desafios de produzir um programa diário?

Nelson: É complicado, é um ritmo, há uma interação com o ouvinte, isso na área musical. No programa jornalístico eu trabalho muito no improviso. Eu começo a receber as informações a partir do momento que entro no AR.

 

MC: Os créditos são seus.

Nelson: Ninguém faz nada sozinho, então quero agradecer a todos que desde o início quando a rádio era pirata, esteve conosco. Hoje o computador faz tudo na década de 90 não era assim. A pessoa tinha que ser radialista, ter conhecimento de funcionalidade, pois era um aparato se você não soubesse não conduzia. Hoje, se programa 60 músicas e só entra com a fala.  Quero agradecer a todos que estiveram junto a nós.